Jane Saglia

Jane Saglia

Formação de Olhar

Leitura, sensibilidade e formação do olhar

Ensaio

As histórias que não contamos às crianças

O silêncio, a omissão e tudo aquilo que também forma o olhar

Existe um momento silencioso na vida de toda mãe e talvez de todo adulto em que percebemos que não estamos apenas contando histórias para uma criança. Estamos escolhendo quais histórias não contar. Não é uma decisão anunciada. Ela acontece nos detalhes. No filme que não colocamos. Na pergunta que desviamos. Na resposta que simplificamos. Na tentativa constante de proteger algo que ainda parece grande demais para caber no mundo de uma criança. Mas, aos poucos, uma percepção se impõe: toda infância também é construída por ausências. Não apenas pelo que é dito, mas pelo que é cuidadosamente omitido. Como mãe, já me vi diante desse limite muitas vezes. O quanto explico? O quanto preservo? Quando nomeio algo difícil e quando deixo passar? Existe um ponto exato entre proteger e esconder? Talvez não exista uma resposta única. Mas existe uma tensão constante. Crianças percebem mais do que compreendem. Elas captam mudanças de energia, silêncios prolongados, expressões contidas. Sentem quando algo está fora do lugar, mesmo sem saber dizer o quê. E quando não há narrativa, ainda assim há experiência. O não dito não desaparece. Ele se transforma em sensação. Uma sensação que, muitas vezes, não encontra nome. É nesse espaço que o silêncio começa a atuar como linguagem. Não uma linguagem clara, organizada, como a de uma história contada, mas uma linguagem difusa, que pode gerar confusão, inquietação ou até interpretações próprias. Porque a criança, inevitavelmente, vai tentar preencher o vazio. Ela cria hipóteses. Imagina causas. Constrói pequenas histórias internas para dar sentido ao que percebe. E nem sempre essas histórias são gentis. Ao mesmo tempo, existe algo profundamente legítimo no gesto de proteger. Nem toda complexidade precisa ser apresentada de forma imediata. Nem toda dor precisa ser traduzida antes do tempo. A infância também precisa de respiro. Precisa de tempo para que o mundo se revele em camadas. Talvez o ponto não esteja entre dizer tudo ou esconder tudo. Mas em compreender que o silêncio também educa. Que ele não é neutro. Que ele participa ativamente da formação do olhar. E isso desloca a questão. Já não se trata apenas de escolher boas histórias para contar, mas de reconhecer que estamos, o tempo todo, editando a realidade. E toda edição carrega intenção. O que deixamos de fora, o que adiamos, o que suavizamos… tudo isso constrói uma forma de ver o mundo. Às vezes mais segura. Às vezes mais limitada. Às vezes necessária. Às vezes excessiva. Não há fórmula. Mas talvez exista um cuidado possível: o de não subestimar a sensibilidade da criança. Ela pode não compreender tudo, mas sente. E, muitas vezes, o que ela precisa não é da explicação completa, mas de uma presença que legitime a experiência. Um espaço onde, mesmo sem todas as respostas, exista abertura para o que é sentido. Nomear aos poucos. Traduzir com delicadeza. Permitir perguntas. E, sobretudo, reconhecer que o silêncio não precisa ser vazio. Ele pode ser um intervalo. Um tempo entre uma descoberta e outra. Um espaço onde o mundo ainda não foi totalmente revelado, não por negação, mas por respeito ao ritmo de quem ainda está aprendendo a ver. Se, no primeiro movimento, pensamos a infância como o território onde as histórias começam, talvez agora seja preciso admitir que elas também se formam nos intervalos. No que é dito e no que é suspenso. No que é explicado e no que é apenas percebido. Formar o olhar de uma criança não é apenas mostrar o mundo. É, em alguma medida, decidir quando e como esse mundo será revelado. E talvez a responsabilidade mais sutil e mais difícil esteja justamente aí: não no excesso de palavras, mas na consciência dos silêncios. Porque, mesmo quando não contamos uma história, algo ainda está sendo narrado.

Jane Saglia Escritora e fundadora da Editora Arthéman. Escreve sobre literatura, infância e formação de sensibilidade a partir da experiência materna e do universo das narrativas infantis.
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