Fernando Starkey

Fernando Starkey

Cultura e Trilha Sonora Como Linguagem

A música e o imaginário coletivo

Ensaio

O Neon Também Sangra - E Faz Barulho

Som, imagem e presença física da trilha como linguagem.

Não é sobre dar nota para roteiro. Não é sobre dissecar arco dramático. Em Tron: Ares, o que me conquista é precisão da trilha sonora - porque aqui ela não funciona como acompanhamento: ela é o novo disco do Nine Inch Nails apresentado dentro de um filme. O incrível choque direto entre som e imagem. Como o álbum respira junto com a montagem. Como ele tensiona a narrativa sem pedir licença.

Tron: Ares é o terceiro capítulo de uma saga iniciada com Tron (1982, trilha de Wendy Carlos), seguida por Tron: Legacy (2010, trilha do Daft Punk). Agora, em 2025, o comando sonoro passa para o Nine Inch Nails - e a temperatura muda.

Nine Inch Nails, oficialmente abreviado como NIN - sigla que a própria banda adota inclusive em seus logotipos - sempre transitou entre brutalidade, delicadeza sombria e melodias cativantes. O rock industrial é a espinha dorsal do NIN, a base sobre a qual guitarras distorcidas, batidas mecânicas e camadas de sintetizadores se erguem com identidade própria. Em Tron: Ares (Original Motion Picture Soundtrack), esse núcleo ganha uma ênfase eletrônica ainda mais densa, mais pulsante, mais arquitetada em camadas. Há muitos sintetizadores fervendo, texturas digitais comprimidas, frequências que parecem pressionar o ar. O som soa carregado, como se a própria rede estivesse no limite da sobrecarga - e isso conversa diretamente com o domínio do vermelho neon que define a superprodução da Walt Disney Pictures.

A maior parte do álbum é instrumental, o que reforça seu caráter conceitual. As faixas não competem com as imagens; elas as envolvem. Em vários momentos, a trilha funciona como corrente elétrica que se espalha pela cena, ampliando atmosferas, pressionando silêncios, moldando a percepção do espectador. O encaixe é preciso. Mérito do Nine Inch Nails, que sabe que trilha sonora não é música de fundo - é o que sustenta a cena mesmo quando você não percebe.

Quando a voz surge, especialmente em “As Alive as You Need Me to Be” - single que divulga o disco - o impacto é imediato, mas não apenas pela presença vocal. A música é completamente dançante, com peso e melodia característicos da banda, sustentada por um groove pulsante que empurra a faixa para frente. Tem swing, tem pressão, tem aquele peso que bate no peito e faz o corpo responder sem pensar. Sobre essa base rítmica, Trent Reznor entrega um vocal melódico, sombrio e carismático, que cresce até explodir em um refrão expansivo, cheio de melodia e intensidade. É uma explosão controlada: o peso não elimina o apelo melódico, e o groove não dilui a tensão. No meio de tanto circuito e distorção, ainda tem sangue correndo ali - frágil às vezes, mas casca-grossa, batendo de frente com o barulho sem baixar a cabeça.

O personagem Ares é interpretado por Jared Leto, também vocalista do Thirty Seconds to Mars - banda de enorme reconhecimento comercial, ainda que não esteja entre as minhas preferências pessoais. Ares menciona no filme que sua banda favorita é Depeche Mode, influência histórica do NIN. A referência não soa gratuita: existe uma linha estética que liga o synth melancólico britânico à tensão industrial que Reznor transformou em assinatura.

O reconhecimento institucional do Nine Inch Nails veio com sua introdução ao Rock and Roll Hall of Fame em 2020. Hoje, o núcleo criativo oficial se concentra em Reznor e Atticus Ross, colaborador desde 2002 e membro formal desde 2016. A parceria consolidou uma das duplas mais relevantes das trilhas contemporâneas, culminando no premiado trabalho em Soul, da Pixar, ao lado de Jon Batiste.

Mas o Nine Inch Nails também é potência de palco. E aqui destaco o extraordinário Robin Finck - guitarrista de inventividade rara, crucial nas gravações de guitarras e teclados em estúdio ao longo de diferentes fases da banda e também na incrível textura ao vivo da banda. Seu período no Guns N’ Roses, especialmente em Chinese Democracy, evidenciou sua versatilidade técnica. No NIN, ele integra a formação ao vivo ao lado do baterista Josh Freese - que gravou dois discos com a banda em 2007 e 2008 e retorna em 2025 - e do baixista Stu Brooks. Todos fazem parte do Nine Inch Nails nas turnês, convertendo o peso do rock industrial - guitarras, baixo, bateria e sintetizadores cortando o ar - numa atmosfera ao vivo sempre gigantesca, densa e impecável.

Meu contato com a banda também ganhou força por causa do cinema. Em The Crow, estrelado por Brandon Lee, a versão de “Dead Souls”, originalmente do Joy Division, elevou a atmosfera do filme a um patamar quase ritualístico. Já na série Animal Kingdom, músicas como “Less Than” e “Physical (You’re So)” mostraram como o Nine Inch Nails sabe se encaixar na cena: entra com extrema personalidade, mantém a tensão lá em cima e deixa a sequência ainda mais intensa.

Tenho dificuldade em escolher um único álbum favorito, porque minhas músicas preferidas estão espalhadas por toda a discografia. Ainda assim, quando penso em discos para ouvir do começo ao fim, The Fragile (1999) e With Teeth (2005) acabam sendo minhas escolhas mais recorrentes.

Já canções como “Closer”, “Wish”, “Hurt”, “March of the Pigs”, “Terrible Lie”, “Head Like a Hole”, “The Hand That Feeds”, “We’re in This Together”, “The Perfect Drug” e “Reptile” são músicas que atravessaram gerações e soam atuais até hoje. Quando Johnny Cash reinterpretou “Hurt”, sob produção de Rick Rubin, a composição ganhou uma nova dimensão histórica.

Em Tron: Ares, o som não está ali só pra enfeitar o cenário. Ele é quem dita o clima, puxa o ar da cena e marca o passo de tudo que acontece. A tecnologia não fica parada - ela vibra, ameaça, pressiona. E aquela luz neon que toma a tela não é só visual bonito: parece ter batida própria, como se o filme inteiro estivesse ligado na tomada.

No fim, não é só a história e o impacto visual. É a sensação física da música e do ruído. O neon também sangra. E faz barulho.

Fernando Starkey Músico, conhecido por seu projeto solo STARKEY. É pesquisador do Rock N Roll e escreve sobre música e cinema sob uma perspectiva crítica e estética.
← Voltar para o colunista