Bruno Guerra

Bruno Guerra

Sustentabilidade e Futuro Criativo

Criar hoje pensando no amanhã

Ensaio

Entre o palco e a regeneração: o novo papel do teatro

O teatro precisa decidir se quer continuar existindo ou apenas resistindo.

Durante muito tempo, foi um espaço de expressão, crítica e transformação. Um lugar onde a sociedade se via, se questionava e se reinventava. Mas hoje isso já não basta. O teatro não é mais avaliado apenas pelo que apresenta no palco. Ele passou a ser observado também por como funciona, por como consome, por como produz e, principalmente, por como se posiciona diante das exigências do mundo atual. E essas exigências mudaram de forma estrutural. Vivemos um momento em que sustentabilidade, economia, segurança e até a geopolítica deixaram de ser temas isolados e passaram a influenciar diretamente decisões em todos os setores. Isso impacta custos, cadeias produtivas, acesso a recursos e modelos de financiamento. O teatro não está fora desse contexto. Ele está dentro dele - e cada vez mais atravessado por essas pressões. Por isso, a sustentabilidade deixou de ser um discurso desejável. Tornou-se uma condição de permanência. Não se trata mais de fazer quando possível, mas de fazer para continuar existindo. O setor cultural, que por muito tempo operou com menor pressão por eficiência, começa agora a sentir esse deslocamento de forma mais intensa. Durante anos, o teatro funcionou dentro de uma lógica em que criação artística e operação estavam separadas. Cenários eram construídos para uso único, materiais descartados sem reaproveitamento, energia consumida sem controle e resíduos gerados sem qualquer rastreabilidade. Isso era entendido como parte natural do processo criativo. Hoje, esse modelo já não se sustenta. Os custos aumentaram, os recursos se tornaram mais escassos e a cobrança por responsabilidade se intensificou. O que antes era tolerado como prática comum passou a ser percebido como desperdício. E desperdício, neste novo cenário, deixou de ser apenas uma questão ambiental. Tornou-se um problema econômico, institucional e estratégico. Essa mudança não acontece apenas por pressão da sociedade. Ela vem principalmente de quem viabiliza o setor. Os patrocinadores já não buscam apenas visibilidade. Eles querem coerência. Querem associar suas marcas a projetos que tenham responsabilidade, organização e capacidade de demonstrar resultados. A sustentabilidade, nesse contexto, passa a ser um critério de decisão. Os produtores, por sua vez, enfrentam uma realidade mais dura. Orçamentos mais apertados, maior exigência por eficiência e a necessidade de entregar mais com menos. Produzir sem controle deixou de ser viável. A sustentabilidade, nesse caso, deixa de ser uma pauta externa e passa a ser uma ferramenta interna de gestão. Os editais também evoluíram. Cada vez mais incorporam critérios técnicos relacionados à sustentabilidade, impacto e organização. Projetos que não demonstram preocupação com eficiência de recursos, gestão de resíduos e responsabilidade ambiental começam a perder competitividade. A seleção deixa de ser apenas artística e passa a considerar também capacidade de execução. Nesse cenário, fica evidente que o desafio do teatro não é mais conceitual. É operacional. O ESG teve um papel importante ao organizar o debate sobre sustentabilidade e direcionar estratégias. Mais recentemente, surge uma evolução desse modelo, o chamado ESG 2.0, que busca sair do discurso e avançar para resultados mais concretos. Ainda assim, em muitos casos, a prática continua distante da operação do dia a dia. E o que o teatro precisa agora não é apenas de diretriz. É de prática. É nesse ponto que a ecoeficiência ganha relevância. Enquanto o ESG aponta o caminho, a ecoeficiência faz acontecer. Ela traduz a sustentabilidade em ação concreta, em decisão prática e em rotina operacional. Ela não substitui o ESG, mas o torna aplicável. A ecoeficiência começa com uma ideia simples: fazer melhor usando menos recursos. Mas, diante dos desafios atuais, isso já não é suficiente. Surge então uma evolução desse conceito, baseada nos chamados 6Rs: reduzir, reutilizar, reciclar, repensar, recusar e regenerar. O último deles muda completamente a lógica. Regenerar significa deixar de apenas reduzir impactos e passar a gerar impacto positivo. Significa devolver ao meio ambiente e à sociedade mais do que foi consumido. É uma mudança de postura. O teatro deixa de ser apenas menos impactante e passa a ser ativamente transformador. E isso não é algo distante da realidade. Pelo contrário, já pode ser aplicado de forma direta. Significa pensar cenários que possam ser reutilizados, figurinos que circulem, consumo de energia mais eficiente, redução de desperdícios e melhor gestão de resíduos. Significa também ir além, apoiando projetos ambientais, contribuindo com a regeneração de territórios e integrando o teatro a uma lógica mais ampla de impacto positivo. Quando essas práticas são adotadas, os benefícios não são apenas ambientais. São também econômicos e estratégicos. Reduzem custos, aumentam eficiência, melhoram a organização e fortalecem a credibilidade. É nesse ponto que surge o conceito de Futuro Criativo. Ele rompe com a ideia de que sustentabilidade é custo e mostra que ela pode ser um caminho de geração de valor. A criatividade deixa de estar apenas no palco e passa a estar também na forma de produzir, organizar e pensar o teatro. A limitação deixa de ser um obstáculo e passa a ser um motor de inovação. E, para que tudo isso não fique apenas no discurso, entra um elemento fundamental: a certificação. O Selo de Eficiência em Economia Criativa surge como uma ferramenta concreta para transformar intenção em prática. Ele organiza, mede e valida as ações do teatro dentro de uma lógica de eficiência, sustentabilidade e geração de valor. Mais do que um reconhecimento, ele funciona como um sistema de gestão. Permite demonstrar que o teatro opera com responsabilidade, melhora sua posição diante de patrocinadores, aumenta sua competitividade em editais e fortalece sua imagem institucional. Em um cenário cada vez mais exigente, isso deixa de ser diferencial e passa a ser estratégico. Ao mesmo tempo, o teatro amplia seu papel quando incorpora a biodiversidade como parte da sua atuação. Ele deixa de atuar apenas dentro de suas paredes e passa a se conectar com o território, com o meio ambiente e com a sociedade de forma mais ampla. Apoiar o plantio de árvores, contribuir para a recuperação de áreas degradadas e participar da proteção de ecossistemas são formas concretas de gerar impacto positivo. Isso aproxima o público e cria uma nova relação com o espectador, que deixa de ser apenas um observador e passa a fazer parte de uma cadeia de transformação. No fim, tudo converge para uma decisão. O teatro sempre soube se reinventar. Mas agora essa reinvenção não é apenas artística. É estrutural. O mundo mudou. Os critérios mudaram. As exigências aumentaram. E o teatro precisa acompanhar esse movimento. O futuro não será definido apenas pelo que acontece no palco. Será definido por como o teatro funciona, por como utiliza recursos, por como se organiza e por como se posiciona diante dos desafios do seu tempo. A sustentabilidade deixou de ser tendência. Tornou-se regra. E a ecoeficiência, aliada ao Futuro Criativo, ao ESG 2.0 e ao Selo de Eficiência em Economia Criativa, aponta um caminho claro. Um caminho mais inteligente, mais responsável e mais preparado para o que vem pela frente. A questão agora não é mais se o teatro vai mudar. É quem vai entender primeiro que mudar deixou de ser uma escolha. E passou a ser uma condição para continuar fazendo sentido.

Bruno Guerra Presidente do IPCEAT e escreve sobre sustentabilidade, desenvolvimento e os caminhos do futuro criativo.
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