Um céu de nuvens criptografadas: de E.T. a Dia D.
A perda da inocência de Steven Spielberg
Há algo de profundamente melancólico na metamorfose do olhar de Steven Spielberg. Para quem cresceu sob o encanto do cinema dos anos 1980, a imagem fundamental da ficção científica e do deslumbre humano permanece gravada na memória coletiva com a clareza de um mito tátil: um quarto de criança atulhado de brinquedos, um toca discos arranhado, um cabide de arame, papel alumínio retorcido e o zumbido mecânico de um Speak & Spell, conhecido no Brasil como Fala e Soletra. Era a ciência doméstica, ingênua e artesanal com a qual o garoto Elliott construía uma engenhoca portátil para que seu amigo alienígena pudesse “discar para casa”. Em E.T. O Extraterrestre (1982), a comunicação interplanetária nascia do afeto e do improviso infantil, desafiando a frieza de um Estado armado com trajes de isolamento de plástico, monitores cardíacos e picapes da NASA munidas de antenas analógicas. Quase cinquenta anos depois, o mesmo Spielberg retorna ao céu noturno não para nos devolver o encanto pueril, mas para mapear as paranoias do nosso presente. Em Dia D (Disclosure Day, 2026), suspense de ficção científica escrito por David Koepp, a tecnologia não funciona apenas como pano de fundo, mas como o motor central tanto do enredo quanto das próprias inovações de produção no cinema moderno. A maravilha analógica cede lugar à corrida desesperada do tempo digital. A engenhoca de quarto dá lugar a servidores de nuvem criptografados, redes globais de fibra óptica, algoritmos de vigilância cibernética e desinformação orquestrada por deepfakes.
A trama acompanha a fuga alucinante de um analista de cibersegurança, interpretado por Josh O’Connor, e de uma meteorologista, interpretada por Emily Blunt. Eles detêm a prova irrefutável e definitiva da existência de vida extraterrestre e tentam transmiti la simultaneamente para toda a humanidade. No entanto, durante a perseguição, opera um vertiginoso conglomerado corporativo militar liderado pelo personagem de Colin Firth, disposto a silenciá los a qualquer custo. Se em 1982 a ameaça governamental precisava invadir a casa física da família com lonas de plástico e homens mascarados, em Dia D o controle é corporativo e militarizado. A repressão já não precisa isolar um bairro com barreiras físicas. Ela bloqueia sinais de satélite em tempo real, derruba transmissões ao vivo e fabrica mentiras sintéticas, apagando os rastros digitais da verdade antes mesmo que ela chegue ao feed do leitor.
Essa fricção entre as duas obras escancara uma transformação radical na trajetória de Spielberg e no modo como a cultura pop concebe o nosso contato com o desconhecido. Em E.T., o encontro era intimista, afetivo e focado no microcosmo das relações humanas. A ligação entre o menino e o visitante espacial ocorria por ressonância biológica e empática: ambos sentiam a dor e o medo um do outro. A tecnologia alienígena servia unicamente para “ligar para casa”. Já em Dia D, o contato abandona o microcosmo do quarto de brinquedos para se tornar um evento político, informacional e macroestrutural. O dispositivo não humano não deseja apenas comunicar seu regresso à nave mãe. Sua frequência atua como um vetor de alteração neurológica e um catalisador de vazamento de dados que ameaça desmantelar o monopólio da verdade mantido pelas elites globais. O alienígena de 2026 deixa de ser a criatura vulnerável escondida entre ursos de pelúcia e converte se na maior ameaça ao controle geopolítico sobre a realidade.
Observar essa evolução é testemunhar o amadurecimento fantástico do maior contador de histórias do cinema moderno. Nos anos 1980, sob a sombra da Guerra Fria, Spielberg apostava no otimismo da infância, no qual a imaginação e a tecnologia improvisada das crianças conseguiam superar adultos rígidos e burocráticos. Em Dia D, contudo, o diretor confronta a maturidade de quem vive em um mundo hipersaturado por telas. O paradoxo é irrefutável: a mesma tecnologia criada para nos conectar globalmente converteu se na ferramenta primordial para nos alienar da verdade.
Se o cinema do século XX nos ensinou a olhar para o firmamento com os olhos arregalados de espanto, Dia D sugere que o céu contemporâneo foi definitivamente criptografado. A grande reflexão formulada por Spielberg não se resume à pergunta sobre se estamos sós no cosmos, mas ao susto de percebermos que, em uma era dominada por algoritmos e pós verdade, a revelação mais extraordinária da história humana corre o risco de ser reduzida a mero ruído manipulável, um meme duvidoso perdido nas rolagens infinitas das nossas telas. Ao final, o suspense de Dia D não reside no mistério sobre a forma dos visitantes espaciais, mas no incômodo espelho que ele estende à humanidade. Spielberg nos força a perguntar se ainda possuímos a capacidade de reconhecer o real quando ele nos encarar, ou se nos tornamos tão habituados às sombras simuladas da nuvem que preferimos o conforto da dúvida programada ao susto luminoso da verdade, que pode até desmaiar, mas nunca morre.
Como diria John Adams, segundo presidente dos Estados Unidos e um dos Pais Fundadores da América: “Fatos são coisas teimosas; quaisquer que sejam nossos desejos, nossas inclinações ou as nossas paixões, eles não podem alterar o estado de fatos e evidências”. No entanto, cabe a cada um de nós lutar pela verdade todos os dias de nossas vidas.