Jane Saglia

Jane Saglia

Formação de Olhar

Leitura, sensibilidade e formação do olhar

Ensaio

A Criança que Observa Enquanto Ninguém Percebe

Como os adultos se tornam as primeiras histórias que uma criança aprende a ler

Há alguns dias, meu filho repetiu uma expressão que eu não lembrava ter ensinado. Não era uma palavra nova. Não era algo que eu tivesse explicado durante uma conversa. Era apenas uma forma de falar, um jeito de reagir a uma situação cotidiana. Quando o ouvi, percebi algo que, na verdade, toda mãe já sabe, mas às vezes esquece: as crianças estão observando o tempo todo. Observam quando acreditamos que estão distraídas. Observam quando estamos ocupados. Observam quando pensamos que não estão prestando atenção. E talvez essa seja uma das experiências mais desconcertantes da vida adulta. Descobrir que, para uma criança, somos muito mais do que pais, mães ou responsáveis. Somos uma espécie de narrativa viva.

Antes de aprender a ler livros, uma criança aprende a ler pessoas. Ela lê expressões, lê silêncios, lê mudanças de humor, lê a forma como reagimos às dificuldades e a maneira como tratamos os outros. Pouco a pouco, transforma tudo isso em referências sobre o que é o mundo. Costumamos associar a aprendizagem às palavras. Pensamos no que ensinamos, no que explicamos e nos conselhos que oferecemos. Mas existe uma aprendizagem paralela, silenciosa e constante, que acontece muito antes de qualquer discurso. Ela nasce da observação. Uma criança vê como lidamos com a frustração. Percebe como falamos de alguém que não está presente. Observa a forma como pedimos desculpas ou deixamos de pedir. Repara na maneira como enfrentamos nossos medos. Nem sempre compreende tudo o que vê, mas registra. E aquilo que registra passa a compor seu repertório de mundo.

Muito antes de compreender conceitos abstratos como honestidade, respeito ou empatia, ela aprende a reconhecê-los na prática. Percebe quando alguém escuta com atenção. Quando trata outra pessoa com gentileza. Quando age de maneira diferente daquilo que exige dos outros. Antes de entender o significado das palavras, aprende a interpretar coerências e contradições. Talvez por isso a infância seja um período tão delicado. Não porque as crianças sejam frágeis, mas porque estão construindo, peça por peça, a primeira versão da realidade. E essa construção acontece muito além dos momentos que consideramos educativos. Ela acontece durante o café da manhã, no trânsito, nas ligações telefônicas e nas pequenas escolhas do cotidiano. Acontece quando ninguém está tentando ensinar nada.

Existe uma frase frequentemente atribuída a diferentes educadores que diz que as crianças fazem menos o que mandamos e mais o que veem. Não sei se a frase é exatamente verdadeira em todos os casos, mas reconheço nela uma sabedoria difícil de ignorar. Os exemplos permanecem. As explicações, muitas vezes, passam. Isso não significa que os adultos precisem ser perfeitos. Talvez uma das ideias mais injustas da parentalidade seja justamente essa expectativa impossível. Crianças não precisam de adultos impecáveis. Precisam de adultos humanos. Adultos que errem e consigam reconhecer o erro. Que sintam medo e consigam falar sobre ele. Que enfrentem dificuldades sem fingir que a vida é simples.

Porque a observação também ensina algo importante: a autenticidade. Quando uma criança percebe que alguém pode falhar e ainda assim continuar tentando, ela aprende mais sobre coragem do que aprenderia em muitos discursos sobre bravura. Quando vê alguém pedir perdão com sinceridade, aprende mais sobre responsabilidade do que em qualquer sermão. Quando presencia um gesto de gentileza aparentemente pequeno, descobre que o cuidado também faz parte da linguagem humana. São histórias sem narrador. Mas nem por isso deixam de ser histórias. Talvez sejam, inclusive, as histórias mais duradouras.

Ao longo da vida, esquecemos muitos conselhos que recebemos. Esquecemos explicações, datas e recomendações. Mas raramente esquecemos a sensação de ter sido acolhido, ouvido ou respeitado. Da mesma forma, carregamos por muito tempo os gestos que observamos repetidamente durante a infância. Eles se transformam em referências invisíveis, em mapas internos, em maneiras de interpretar o mundo. O olhar não nasce pronto. Ele é formado lentamente pelas experiências que acumulamos e pelas pessoas que observamos. Cada gesto cotidiano ajuda a definir aquilo que uma criança aprenderá a considerar normal, desejável ou possível. Em muitos aspectos, educar é participar da construção desse olhar.

Pensar nisso pode parecer uma responsabilidade enorme. E talvez seja. Mas também existe algo bonito nessa percepção. Ela nos lembra que educar não acontece apenas nos grandes momentos. Não depende exclusivamente das conversas planejadas ou das lições cuidadosamente preparadas. Educar acontece na vida comum. Nos detalhes. Nos gestos que ninguém aplaude. Nas atitudes que parecem pequenas demais para serem notadas. Porque, quase sempre, existe uma criança observando enquanto ninguém percebe.

E talvez a primeira grande leitura de uma criança não aconteça nas páginas de um livro. Talvez aconteça no rosto de quem a ama, nos gestos que testemunha, nas escolhas que presencia e nas histórias silenciosas que aprende a ler antes mesmo de conhecer todas as palavras. E é justamente aí que começa a formação do olhar.

Jane Saglia Escritora e fundadora da Editora Arthéman. Escreve sobre literatura, infância e formação de sensibilidade a partir da experiência materna e do universo das narrativas infantis.
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