Francys De Thommazo

Francys De Thommazo

Psicologia do Cotidiano

Ansiedade, Afeto e Autoconhecimento

Ensaio

O Futuro que Inventamos

Como a necessidade de prever o amanhã nos impede de viver o presente.

Todos os dias fazemos previsões. Algumas são práticas: será que vai chover? Será que vai fazer sol? Outras são silenciosas e muito mais perigosas: será que ele vai me rejeitar? Vou fracassar? Será que estou doente? Será que vou perder o emprego? Será que vou ficar sem dinheiro? Ou será que vai acontecer algo de ruim?

Sem perceber, transformamos hipóteses em certezas na nossa mente, como se tivéssemos controle sobre tudo, causando incertezas, medos, preocupação excessiva e, com isso, ansiedade. Começamos a agir como se o futuro já estivesse acontecendo. Existe uma habilidade cognitiva da mente humana de imaginar aquilo que ainda não aconteceu. E, muitas vezes, aquilo que imaginamos passa a parecer mais real do que o próprio presente. A mente que nos protege também pode nos aprisionar.

Em silêncio, a mente cria roteiros, constrói cenários catastróficos e interpreta sinais. É curioso perceber como sofremos por acontecimentos que nunca existiram, não porque sejamos irracionais, mas porque o cérebro prefere uma história, ainda que assustadora, à incerteza. Para ele, prever parece mais seguro do que esperar.

No entanto, essa necessidade de antecipar o amanhã cobra um preço alto. Enquanto tentamos controlar o que ainda não aconteceu, deixamos de perceber o que está acontecendo agora. O café é tomado sem ser saboreado. A conversa acontece enquanto a mente já responde perguntas que ninguém fez. O abraço é interrompido pela preocupação com o dia seguinte. O presente vai se distanciando, a realidade também, e tudo vai ficando cada vez menor.

Talvez uma das maiores armadilhas da ansiedade seja justamente essa: transformar hipóteses em certezas. Começamos a viver como se o futuro já tivesse sido decidido. Mas prever não é o mesmo que saber. Grande parte das histórias que construímos na nossa mente nunca acontece e, ainda assim, produz emoções reais: medo, angústia, ansiedade e tristeza. Sofremos por roteiros criados pela nossa própria imaginação.

Lidar com isso não significa abandonar o planejamento, nem ignorar os riscos. Significa reconhecer que pensamentos não são previsões confiáveis; são apenas tentativas da mente de reduzir a incerteza da vida. Viver o presente não é esquecer o amanhã, é aceitar que nenhuma previsão será capaz de oferecer toda a segurança que tanto buscamos.

O segredo está em separar o que são hipóteses do que são fatos. Talvez não possamos controlar o futuro, mas podemos escolher onde colocamos a nossa atenção. O presente é a realidade que temos para habitar.

Francys De Thommazo Psicóloga e escreve sobre comportamento humano, saúde emocional e os desafios da vida contemporânea. Com mais de duas décadas de experiência clínica, desenvolve seu trabalho a partir da integração entre psicologia, neurociência e desenvolvimento humano.
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