Quando uma flecha encontra uma canção
Existem histórias que atravessam gerações. Robin Hood é uma delas.
O personagem já passou por livros, televisão, teatro e inúmeras versões cinematográficas, sempre encontrando uma maneira diferente de voltar para a floresta de Sherwood. Entre tantas interpretações, Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões, lançado em 1991 e dirigido por Kevin Reynolds, ocupa um lugar muito especial na minha memória.
Eu era criança quando assisti ao filme. E talvez seja impossível separar aquela lembrança do período em que eu estava começando a descobrir a música. No início dos anos 90, eu começava a entender o que significava o rock and roll. As músicas despertavam minha curiosidade, os artistas começavam a ganhar nomes e rostos dentro da minha cabeça e aquele universo passava a ocupar cada vez mais espaço na minha imaginação. Eu queria ouvir, conhecer, entender. E, pouco a pouco, começava a nascer também uma vontade que anos depois se transformaria em realidade: a vontade de ser músico.
Por isso, algumas músicas daquele período ficaram ligadas a mim de uma maneira muito particular. Entre elas estava “(Everything I Do) I Do It for You”, de Bryan Adams. E é curioso pensar que uma das canções que mais marcou aquele momento da minha vida estava ligada a um filme sobre um personagem que já existia havia séculos.
Em 1991, Kevin Costner estava entre os grandes astros de Hollywood. Depois de uma sequência de trabalhos que consolidaram seu nome, ele assumia o papel de Robin de Locksley em uma produção grandiosa, cercada por aventura, romance, batalhas, florestas, castelos e uma atmosfera medieval construída para impressionar. Ao seu lado estava um elenco memorável. Morgan Freeman interpretava Azeem, trazendo uma presença que se tornou fundamental para a história. Mary Elizabeth Mastrantonio vivia Marian. Christian Slater interpretava Will Scarlett. E Alan Rickman assumia o papel do Xerife de Nottingham, construindo um dos vilões mais lembrados daquela versão de Robin Hood.
Para uma criança assistindo àquilo no começo dos anos 90, havia uma quantidade enorme de elementos capazes de alimentar a imaginação. E havia também uma flecha. Uma das imagens mais marcantes da produção acompanha o voo de uma flecha até o momento em que ela encontra o alvo. A câmera segue seu percurso, criando uma sensação de movimento que transformava alguns segundos em uma pequena demonstração daquilo que o cinema de aventura podia fazer. Aquela cena também fazia parte do material de divulgação do filme e acabou se tornando uma das imagens que ajudavam a vender a experiência de Robin Hood. Bastava vê-la para entender que havia aventura, precisão e perigo naquela história.
A flecha seguia seu caminho. E, de certa maneira, a música também.
Bryan Adams era, naquele momento, um dos grandes nomes da música internacional. Canadense, nascido em Kingston, Ontário, Adams havia construído uma carreira de enorme sucesso durante os anos 1980, especialmente depois de álbuns como Cuts Like a Knife e Reckless. Canções como “Run to You”, “Heaven” e “Summer of ’69” já haviam levado sua voz para rádios e palcos do mundo inteiro.
Quando sua voz apareceu em Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões, havia uma estrela da música encontrando uma grande produção cinematográfica. “(Everything I Do) I Do It for You” foi composta por Bryan Adams, Robert John “Mutt” Lange e Michael Kamen. Kamen também era o responsável pela trilha instrumental do filme, criando toda a arquitetura musical que acompanhava aquele universo medieval. A balada encontrava o lado romântico da história. E encontrou também o público.
A música começou a ocupar rádios, televisões e paradas de sucesso ao redor do mundo. No Reino Unido, permaneceu 16 semanas consecutivas no primeiro lugar. Tornou-se um fenômeno internacional, vendeu milhões de cópias e recebeu importantes premiações, incluindo o Grammy de melhor canção escrita especificamente para cinema ou televisão.
Mas existe uma parte dessa história que considero especialmente fascinante: o videoclipe. O clipe de “Everything I Do” incorporava Bryan Adams e sua banda ao universo visual do filme, misturando a performance do cantor com cenas de Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões. Para quem estava vivendo aquela época, essa combinação tinha uma força enorme. O videoclipe permitia que a música continuasse contando a história do filme. E o filme, por sua vez, emprestava à música seus personagens, suas paisagens, suas batalhas e seu romance.
A televisão se transformava em uma espécie de ponte entre o cinema e a música. A gente assistia ao clipe e encontrava Robin Hood. Assistia ao trailer e ouvia aquela atmosfera épica. Ia ao cinema e depois reconhecia a música. O rádio tocava Bryan Adams e, imediatamente, aquelas imagens voltavam à cabeça. Esse encontro entre imagem e som ajudou a construir uma das associações mais fortes da cultura pop daquele período.
Bryan Adams. Kevin Costner. Robin Hood. Sherwood. E “Everything I Do”. Tudo passou a fazer parte da mesma memória.
Para mim, essa ligação era ainda mais forte porque acontecia justamente durante uma fase de descoberta. Eu estava conhecendo o rock and roll, prestando atenção nos músicos, tentando compreender o que havia por trás daqueles sons e começando a imaginar que talvez um dia eu pudesse fazer parte daquele universo. Ainda não existia a experiência que viria depois. Existia apenas a curiosidade de uma criança diante da música e aquela sensação de que havia alguma coisa ali que eu queria conhecer melhor.
É difícil explicar o quanto uma música pode participar da formação de uma memória. Anos depois, podemos ouvir determinada canção e lembrar imediatamente de onde estávamos, de quem éramos, do que estávamos descobrindo naquele momento. “Everything I Do” ficou associada, para mim, a esse período de descoberta. E talvez essa seja uma das maiores forças que uma trilha sonora pode ter.
O cinema trabalha com imagens. A música trabalha com emoções, memórias, ritmo e atmosfera. Quando os dois encontram o ponto certo, uma obra pode ganhar uma segunda vida dentro da memória de quem a assiste. Foi exatamente o que aconteceu com Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões.
A história de Robin Hood já tinha atravessado séculos quando Kevin Costner colocou o capuz e pegou o arco. Muitas outras versões vieram antes e outras tantas surgiriam depois. Ainda assim, para uma geração que viveu aquele começo dos anos 90, aquela produção criou uma identidade própria. E parte dessa identidade tinha uma voz.
A voz de Bryan Adams.
Michael Kamen construiu a dimensão épica da trilha. Bryan Adams trouxe a canção que encontrou o coração romântico da história. Kevin Costner e o elenco deram rosto aos personagens. Kevin Reynolds colocou tudo isso dentro de uma aventura cinematográfica que ficou marcada por suas imagens. E então veio o público, completando o ciclo.
Porque uma obra também passa a pertencer às pessoas que a assistem, às músicas que elas escutam, aos momentos da vida aos quais elas associam aquelas imagens.
É por isso que, tantos anos depois, basta ouvir os primeiros acordes de “(Everything I Do) I Do It for You” para que aquele filme possa reaparecer na memória. A flecha volta a voar. A floresta de Sherwood reaparece. Kevin Costner veste novamente o capuz. E eu volto àquele começo dos anos 90, quando ainda estava descobrindo o rock and roll, descobrindo a música e começando a imaginar que talvez aquele universo pudesse fazer parte da minha vida.
Algumas trilhas sonoras acompanham filmes. Outras acabam acompanhando pessoas. “Everything I Do” fez as duas coisas.
E talvez seja justamente aí que esteja a verdadeira força de uma grande canção de cinema: quando ela consegue atravessar a tela, sobreviver ao tempo e, muitos anos depois, ainda encontrar o caminho de volta para uma lembrança.
A flecha continua voando. Robin Hood continua atravessando a floresta de Sherwood. Bryan Adams continua cantando. E, para quem viveu aquele momento, basta a música começar para que o cinema volte a existir por alguns minutos.
Porque algumas canções pertencem a uma época. Outras pertencem a um filme. E existem aquelas que acabam pertencendo às nossas próprias histórias.
Talvez seja por isso que, quando penso naquele filme, naquela música e naquele menino que começava a descobrir o rock and roll e sonhava em um dia se tornar músico, eu ainda consiga ouvir aqueles primeiros acordes como se fosse a primeira vez.
E então a música começa, olhando diretamente para quem escuta:
“Look into my eyes and you’ll see…”