Rafael Bechtlufft

Rafael Bechtlufft

Cultura Pop, Audiovisual e Mídia

Entre nostalgia, tecnologia e comportamento na era do streaming.

Ensaio

Do DVD ao algoritmo: quem decide o que você consome na Era Miranda Priestly?

Entre nostalgia, tecnologia e poder, talvez o controle tenha apenas mudado de forma.

O tempo que separa o primeiro filme O Diabo Veste Prada de sua continuação é de duas décadas. Vinte anos em que não apenas a tecnologia evoluiu, mas a forma como consumimos cultura foi completamente redesenhada. Em 2006, ainda estávamos nos adaptando ao DVD como principal meio de acesso aos filmes. Havia um ritual. Lembro de ir semanalmente à única Blockbuster de Petrópolis, escolher títulos com amigos ou família, caminhar entre prateleiras físicas onde, de certa forma, tudo parecia mais visível, mais limitado e, paradoxalmente, mais simples.

Na década seguinte, o Blu-ray surgiu como promessa de evolução. Mais qualidade, mais capacidade, mais tecnologia. Mas sua ascensão foi breve. Antes mesmo de se consolidar, já dava lugar a algo maior. O streaming não apenas substituiu uma mídia. Ele alterou a lógica inteira do consumo.

Com a Netflix e, depois, outras plataformas, o acesso deixou de ser escasso e passou a ser praticamente infinito. O que antes dependia de uma escolha física e pontual, agora se tornou uma experiência contínua, disponível a qualquer momento.

Essa mudança não é apenas tecnológica. Ela é comportamental. Na era das locadoras, escolher um filme exigia decisão. Existia um limite. Hoje, diante de catálogos quase intermináveis, a escolha se dilui. E é justamente nesse ponto que algo mais profundo acontece.

Se antes você decidia o que assistir, agora, muitas vezes, alguém ou algo decide por você. Os algoritmos passaram a ocupar um espaço silencioso, mas determinante. Eles sugerem, organizam, priorizam. Eles aprendem com o seu comportamento e, a partir dele, moldam suas próximas escolhas.

Não se trata apenas de facilitar. Trata-se de direcionar. A experiência deixa de ser apenas consumo e passa a ser condução.

Quando pensamos em Miranda Priestly, a icônica editora de moda, lembramos de alguém que definia o que era relevante. No universo de Runway, nada escapava ao seu olhar. Tendências, comportamentos, estética. Tudo passava por um filtro centralizado, humano, visível.

Hoje, esse papel não desapareceu. Ele apenas mudou de forma. O que antes era decidido por figuras como Miranda agora é operado por sistemas invisíveis, que não têm rosto, mas têm lógica.

A transformação da revista impressa dentro da narrativa do filme acompanha esse movimento. Publicações que antes eram referência perderam espaço, precisaram se reinventar, migrar para o digital, adaptar linguagem e formato.

Não é apenas uma mudança de meio. É uma mudança de poder. A autoridade editorial, antes concentrada, agora disputa espaço com dados, métricas e engajamento.

Nos anos 2000, as redes sociais ainda engatinhavam. Orkut, MSN, blogs. Havia uma sensação de descoberta, de construção coletiva de presença digital.

Hoje, plataformas como o Instagram e o WhatsApp não apenas conectam pessoas, mas estruturam rotinas, influenciam decisões e, muitas vezes, antecipam desejos. O digital deixou de ser extensão da vida para se tornar parte central dela.

A campanha do novo filme evidencia isso com clareza. Não se trata apenas de divulgação. Trata-se de presença constante. Teasers, trailers, entrevistas, cortes distribuídos estrategicamente em diferentes plataformas.

Cada peça é pensada não apenas para informar, mas para circular, engajar, viralizar. Existe uma engrenagem em funcionamento. E ela não depende mais apenas do conteúdo, mas da forma como ele é distribuído e consumido.

Talvez a grande questão não seja o que mudou, mas quem passou a controlar essas mudanças. Antes, havia figuras claras de autoridade. Hoje, o controle é mais difuso, mais silencioso, mais difícil de perceber. E justamente por isso, mais poderoso.

O que me intriga não é apenas o fato de o público querer uma continuação depois de tanto tempo. É o motivo pelo qual essas histórias ainda fazem sentido.

Talvez porque, no fundo, a estrutura permaneça. Ainda buscamos referências, ainda seguimos tendências, ainda queremos entender o que é relevante. A diferença é que, agora, esse direcionamento não vem apenas de personagens como Miranda, mas de sistemas que operam nos bastidores.

Se antes a pergunta era “quem decide o que está na capa?”, hoje talvez seja outra: você ainda escolhe o que consome, ou apenas responde ao que foi escolhido para você?

Rafael Bechtlufft Formado em Cinema pela PUC-Rio e escreve sobre cultura pop, mídia e as transformações do audiovisual contemporâneo.
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